ESQUISTOSSOMOSE MANSÔNICA

Por Carlos Fernandes



1. INTRODUÇÃO

O filo (do grego phylo, tribo) Platyhelminthes (do grego platys, achatado, e helminthes,vermes), os platelmintos, reúne vermes de corpo achatado, sendo grande parte deles parasitas internos ou externos de animais vertebrados. Os platelmintos parasitas integram as classes Cestoda e Trematoda. Filos são divisões sistemáticas dos sub-reinos do reino Animalia (do latim animalia, animal), um dos cinco reinos na classificação proposta (e hoje aceita internacionalmente) em 1969, por R. H. Whitaker (1924-1980), biólogo americano.

Os Cestoda, ou os cestóides ou cestóideos (do grego késios, pelo latim cestu; mais o grego -oeidés, forma) são as solitárias, ou tênias (do grego tinia, fita, tira) endoparasitas (do grego endo, dentro) que vivem na cavidade intestinal do homem e, entre os Trematoda os mais conhecidos são os esquistossomos, vermes também endoparasitas, que habitam veias do fígado e de outros órgãos abdominais, causando a esquistossomose no homem. Os Trematoda, ou trematódeos, caracterizam-se por possuírem o corpo revestido por uma cutícula resistente, que os protege contra as eventuais defesas do parasitado e, também, são dotados de umas espécies de ventosas que o fixam ao hospedeiro.
 

2. IDENTIFICAÇÃO

A esquistossomose é uma infecção produzida por cada uma das três espécies de esquistossomo: Schistosoma haemotobium, Schistosoma japonicum e Schistosoma mansoni (de Sir Patrick Manson, 1844-1922, parasitologista britânico famoso por avanços em medicina tropical; em 1877, por exemplo, descobriu que a malária era transmitida por um mosquito), e que tem, conforme o esquistossomo causador, características próprias e dependentes da localização deste. É também conhecida como esquistossomíase, bilharziose (homenagem ao bacteriologista alemão Theodor Bilharz,1825-1862, professor da Escola de Medicina do Cairo, que, em 1851, descobriu e descreveu, no Egito, o esquistossômulo do Schistosoma haemotobium) e, popularmente, barriga díágua.

Dependendo da espécie o verme inicialmente aloja-se nos vasos sanguíneos da bexiga (Schistosoma haemotobium), no intestino (Schistosoma japonicum), e no fígado e intestino (Schistosoma mansoni). Por isto os dois últimos são conhecidos como provocadores de esquistossomíases intestinais e o primeiro da urinária.

Na esquistossomose mansônica o agente etiológico (agente que causa a doença) da esquistossomose mansoni é o esquistossomo (Schistosoma mansoni), um verme platelminto, da classe dos trematódeos, família dos esquistossomídeos, digenético (providos de duas ventosas) e sexuado, parasita do homem e de alguns mamíferos masurpiais, em cujas veias do sistema portal localizam-se os vermes adultos. A veia porta é aquela que conduz ao fígado o sangue venoso proveniente de vários órgãos abdominais (baço, estômago, intestino delgado, cólons, etc.). Também se diz apenas porta, portal.
 

3. HISTÓRICO

Desde a Antigüidade que o homem vem sofrendo desta terrível moléstia, como comprovações em algumas múmias do Egito, nas quais ovos desses pequenos vermes parasitas foram encontrados. Entre os egípcios a esquistossomose ainda é muito comum e é considerada a doença mais grave do país e entre os sanitaristas daquele país há a opinião de que a represa de Assuã seja a principal responsável pela disseminação e endemicidade do mal por todo o país.

No Brasil, inicialmente, a doença foi detectada nas faixas litorâneas da Região Nordeste, conforme estudos desenvolvidos por Manuel Augusto Pirajá da Silva (1873-1961), notável médico e professor baiano. Suas primeiras observações sobre esquistossomos datam de 1904, quando pioneiramente, estudou no Brasil ovos do parasita eliminados por um doente em Salvador. Em 1908, ele descobriu e fez completa descrição do Schistosoma mansoni e, em 1912, publicou um notável trabalho descrevendo a cercária da esquistossomose.

Hoje a doença espalha-se por quase todo o país, em virtude dos movimentos migratórios. Nos Estados da Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco existem áreas em que a população infectada alcança índices de 60% (Dacach, 1979). É provável, segundo várias publicações, que o tráfico de escravos africanos tenha sido o responsável pela introdução da doença no nosso continente.
 

4. DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA

A esquistossomose é uma doença originária da África, possivelmente do Egito. A esquistossomose hematóbica é mais comum na África e Oriente Médio enquanto que o Schistosoma japonicum é encontrado no Extremo Oriente. A esquistossomose mansônica é característica das Américas. No Brasil encontra-se um dos maiores focos do mundo, distribuindo-se praticamente por quase todos os estados, principalmente com infestação endêmica em partes das Regiões Nordeste, Leste e Centro-Oeste (Figura 1).


Figura 1 - Distribuição Geográfica da Esquistossomose Mansônica no Brasil
(Desenho: Carlos Fernandes, 1999)


5. NÚMEROS DA ESQUISTOSSOMOSE

Segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), 200 milhões de pessoas em 76 países sofrem de esquistossomose. No Brasil, o leste da Região Nordeste e o nordeste e leste do Estado de Minas Gerais convivem com a esquistossomose em situação endêmica. Os programas de controle do Ministério da Saúde conseguiram, até agora, diminuir a mortalidade e as formas mais graves da doença. Segundo estimativas do Ministério da Saúde, em 1993 foram detectados 272.728 casos (Almanaque Abril / 95). Em 1995, 11,1% do total de 2.715 259 pessoas examinadas no Brasil registraram a doença. No primeiro semestre de 1996, a proporção foi de 9% do total de 945.365 pessoas examinadas. Os exames ocorreram nas chamadas áreas esquistossomóticas, que compreendem parcialmente 18 estados e onde vivem cerca de 69 milhões de habitantes (Almanaque Abril / 97).
 

6. CICLO EVOLUTIVO (Figura 2)

O hospedeiro elimina nas fezes o ovo que mede cerca de 114-175 por 45-68 micrômetros (Figura 2a). Quando os ovos maduros atingem a água doce em condições adequadas, principalmente de temperatura e luz, ocorre a eclosão e liberam uma forma larvária ciliada denominada de miracídio que possui em média 180 x 62 micrômetros. Os miracídios nadam a procura do hospedeiro intermediário. Fora do hospedeiro, normalmente, o miracídio não sobrevive além de um dia (seis horas em média segundo Feachem, 1983).

No seu ciclo evolutivo os miracídios mansônicos hospedam-se nos caramujos do gênero Biomphalaria, espécies de água doce (no Brasil o B. glabrata, o B. straminea e B. tenagophila), penetrando em qualquer parte descoberta destes moluscos, tendo preferência pela base das antenas ou pelo pé. Estes moluscos vivem principalmente em pequenas porções de águas paradas ou de fraca correnteza, onde haja luz solar e pouca poluição (riachos de pequena declividade e fundo arenoso, valas de irrigação, alagadiços, etc.).

Após penetração no caramujo, em 48 horas transformam-se em esporocistos primários, possuindo em seu interior as células germinativas. O período de vida dos esporocistos é de 18 a 21 dias. A partir do 14o dia de penetração do miracídio, no interior do esporocisto primário, inicia-se a formação dos esporocistos secundários ou rédias, que também possuem um aglomerado de células germinativas. As rédias passam a sofrer uma série de modificações, especialmente em seu crescimento e em seu interior, onde se dá o complicado processo de formação de uma grande quantidade de cercárias, pois cada miracídio que infesta o caramujo poderá resultar no final da transformação na impressionante soma de mais de 10 mil cercárias (Amabis & Martho, 1996). No fim de 25 a 30 dias ou até um pouco mais (de um a três meses segundo Feachem at alli, 1983), dependendo da temperatura da água em que vive o caramujo e da própria espécie deste, as cercárias começam a sair das rédias, a taxa aproximada de mil por dia, durante cerca de duas semanas no caso da mansônica (Feachem at alli, 1983), e nadam a procura dos hospedeiros vertebrados.


Figura 2 - Representação esquemática do ciclo evolutivo
(Desenho: Carlos Fernandes, 1999)
 

Figura 2a - Ovo do verme do Schistosoma Mansoni (x 640), ovóide alongado,
cor amarelo-amarronzado, casca transparente e contendo um miracídio
(Fonte: Thienpont et alli, 1986)

Cada cercária é formada por um corpo e uma cauda que se bifurca na parte terminal (Figura 3 e 3a). Mede cerca de 140 por 4 micrômetros, podendo viver até 48 horas (Feachem at alli, 1983), ou até 3 dias (Dacach, 1979), na água. Penetrando pela pele do hospedeiro vertebrado, alcança a corrente sanguínea em 2 a 15 minutos, podendo também penetrar pela mucosa, quando água infectada é ingerida, embora esta forma de contágio seja muito menos significativa.
 

Figura 3 - Cercária corada pelo carmim (Fonte: Chaia, 1975)
 

No momento em que cada cercária penetra no hospedeiro, perde sua cauda e transforma-se em esquistossômulo (corpúsculo vivo resultante após a penetração da cercária no tecido do hospedeiro), entra na corrente sanguínea, passa pelo coração, atinge o pulmão e posteriormente chega ao sistema porta intra-hepático, desenvolvendo-se até chegar à fase de vermes adultos de ambos os sexos.
 
 

Figura 3a - Caramujo hospedeiro e esquistossomo na fase larvária
(Fonte: Dacach, 1979)

Figura 4 - Esquistossomos adultos: a fêmea, mais longa (comprimento de 10 a 20 mm por 0,16mm de diâmetro), dentro do canal ginecóforo do macho (este com 6 a 12 mm de comprimento por 1,1 de largura).
(Fonte: Dacach, 1979)

Em seguida migram para o intestino, contra a corrente sanguínea, e instalam-se nas vênulas da parede intestinal, onde permanecem constantemente acasalados (Figura 4), vivendo em média dois anos, mas em determinadas situações até 30 anos (Amabis & Martho, 1996). Cada fêmea pode produzir em média 300 ovos por dia. Destes ovos provenientes das fêmeas cerca de 20% (Feachem at alli, 1983) caem no tubo intestinal e são eliminados com as fezes. Porém, na sua maioria, são retidos pelos tecidos, após serem carreados pelos vasos sanguíneos, dando origem aos granulomas (massa de tecido não tumoral, com características proliferativas, fibrosantes e degenerativas, que se desenvolve, muitas vezes, em diferentes inflamações crônicas). Do momento da penetração da cercária até o início da produção de novos ovos completa-se um intervalo em torno de 1 a 2 meses (Feachem at alli, 1983), denominado de período de incubação.
 

7. PATOGENIA

A infecção esquistossomótica inicia-se com a invasão das furcocercárias através da pele das partes do corpo expostas ao contato com águas contaminadas, acompanhadas às vezes de dermatite pruriginosa. O período de incubação é variável, podendo atingir 4 a 8 semanas, o que caracteriza a fase pré-postural.

A penetração das cercárias na pele faz-se entre 2 e 15 minutos (todos os autores), freqüentemente produzindo pruridos e lesões como determinadas alterações da camada córnea e do conjunto acelular. Na fase aguda os esquistossômulos provocam lesões hepáticas. Os ovos que não são eliminados via intestino, são carreados para o leito portal intra-hepático. Os ovos depositados nos tecidos (intestino, fígado ou outros órgãos) determinam reações inflamatórias granulomatosas e variam de acordo com o tecido, obedecendo às seguintes fases: granulomas em fase necroticoexsudativa, exsudativa, produtiva e de fibrose.

Dependendo da intensidade da infecção e da resistência orgânica da pessoa infectada, em algumas delas podem passar despercebidos os efeitos dos pequenos danos internos. Noutras mais fortemente infectadas haverá pelo menos uma queda no seu rendimento físico (Awad el Karim, 1981, citado por Feachem at alli, 1983), sendo que em crianças, inclusive, perda de crescimento. Em situações mais extremas, a formação de granulomas provoca o rompimento de vasos acima do estômago, implicando em intensas hemorragias pela boca que podem levar à morte do enfermo.
 

8. SINTOMATOLOGIA

Os sintomas mais comuns são mal-estar, febre, dor de cabeça, perda do apetite, suor intenso, tosse, diarréia com ou sem dolorimento abdominal. Nos casos crônicos há dor abdominal, dificuldade de digestão e náuseas. Os sintomas mais agudos surgem quando os vermes amadurecem no organismo humano, após quatro a seis semanas da infecção, mas não é raro, na sua passagem pelos pulmões, provocarem febres e problemas respiratórios. Dependendo do grau de infestação, o fígado pode aumentar muito de tamanho e o doente fica com a barriga inchada, daí a denominação de barriga d'água.

A duração desta fase estende-se até 40 a 60 dias quando começam a aparecer os primeiros ovos nas fezes, evidenciando a maturação dos parasitas e o quadro febril declina lentamente. O paciente passa, então, para a fase crônica com diarréias, evacuações mucosanguinolentas e cólicas abdominais. Em casos mais graves, devido a fibrose extensa do fígado, ocorre hipertensão da circulação portal - acumula-se sangue no baço e aparecem varizes no esôfago, órgãos cujas veias desembocam no sistema porta. A ruptura das varizes esofágicas provoca hemorragias extensas (hematêmese) e muito graves. A desnutrição dos pacientes é devida não só a anemia decorrente das hemorragias, mas também ao funcionamento insuficiente do fígado. A cura exige medicamentos específicos.
 

9. EPIDEMIOLOGIA

Esquistossomose é uma doença característica de pessoas pobres e habitantes rurais, onde normalmente há o contato freqüente e o consumo direto de águas superficiais contaminadas e não existem sistemas de esgotamentos sanitários. É também uma doença cuja melhor maneira de se combater é com medidas preventivas. Logicamente o consumo de água sem tratamento adequado pode trazer a infecção também para as comunidades urbanas, incluindo estas populações no ciclo. Desde que o homem habite próximo as águas superficiais, esta tenha características favoráveis em termos de temperatura, pH, velocidade, etc., e seja habitat do caramujo hospedeiro, tem-se um ambiente propício para a continuidade da transmissão.

Particularmente quanto a esquistossomose mansônica, não se pode afirmar que alguém possa adquirir imunidade a contaminação e desenvolvimento da doença, muito menos que haja predominância entre homens ou entre mulheres. Diferentes atividades causam diversidades de amostragens, por exemplo, em vilas no delta do Rio Nilo, no Egito, onde as mulheres dedicam-se mais às atividades caseiras há predominância de homens infectados e, na situação oposta, em áreas onde as mulheres trabalham nos campos o nível de contaminação inverte-se para as mulheres (Abdel-Wahab e outros, 1980).

Em áreas endêmicas há uma predominância de infecção na idade de 5 a 20 anos, facilmente explicável por ser esta a faixa etária onde o indivíduo mais se expõe às águas contaminadas, inicialmente por inocência e depois pela impetuosidade da juventude. Os adultos mais suscetíveis a contaminações serão aqueles profissionais que trabalharem em tarefas que o mantenham em contato com a água infectada, como por exemplo, plantadores de arroz, lavadeiras de roupa, pescadores, canoeiros, etc. Curiosamente as pessoas que forem mais cuidadosas na higiene corporal, poderão ter mais chances de contaminação em áreas infectadas que, por exemplo, as que tomam menos banhos.

A transmissão também pode ser influenciada pela variações climáticas. Períodos frios desfavorecem a reprodução dos caramujos e a parte do ciclo fora dos hospedeiros. Ocorrências de enchentes reduzem as ocorrências, pois diluem ou carreiam as águas contaminadas, enquanto que períodos de estiagem concentram as massa d'água, piorando a situação, paradoxalmente em secas extremas desaparecem os pequenos mananciais superficiais contaminados, favorecendo pois, o controle.
 

10. PREVENÇÃO

10.1. Parâmetros de Controle

Pesquisas desenvolvidas por Standen (1951, citado por Feachem at alli, 1983), indicaram que a temperatura ótima para a eclosão dos ovos da espécie mansônica é de 28°C em um intervalo possível de 3 a 38°C, e que esta eclosão era reduzida em salinidades inferiores a 0,05% e inexistente acima de 0,6%. Kawata e Krusé (1966, citado por Feachem at alli, 1983), concluíram que baixas taxas de oxigênio dissolvido inibiriam essa eclosão. Outros pesquisadores concluíram que o pH em torno de 7,5 (numa faixa de 5,5 a 8,4) favorece a sobrevivência dos miracídios e que a vida destes decai com o crescimento da temperatura. Segundo Farley, 11 horas a 8°C, 7 horas a 20°C e 1,5 horas a 35°C (1962, citado por Feachem at alli, 1983).

Estudos desenvolvidos na África do Sul (Porter, 1938, citado por Feachem at alli, 1983), demonstraram que os ovos mansônicos em fezes sobrevivem naturalmente por três dias, metade sobrevive por seis dias e nenhum por mais de oito dias. Em Porto Rico concluiu-se que estes ovos sobreviveriam por dois dias em fezes brutas e um dia em fezes liquefeitas, em temperaturas na faixa de 24 a 32°C. Nas fezes brutas, entre 7 a 10°C, esta sobrevivência subiria para 7 dias (Faust e Hoffman, 1934, citado por Feachem at alli, 1983).
 

10.2. Medidas isoladas

Basicamente dois são os aspectos do lado do homem, a serem analisados em um processo de prevenção: o contato com a água contaminada e a disposição das excretas. A promiscuidade no uso da água, principalmente pelas crianças mal cuidadas, é um dos fatores de favorecimento à continuidade do ciclo da doença.

A doença pode ser curável, porém as lesões já causadas não são recuperáveis. Evitar contato com águas habitadas por caramujos que podem ser portadores das larvas do esquistossoma. Eficiência no saneamento público e combate ao caramujo hospedeiro e o tratamento da água e das fezes são as principais medidas de prevenção, e o tratamento efetivo dos portadores.

É primordial que não se deixe que as excretas humanas atinjam os reservatórios de água, devendo ser generalizado o uso de privadas higiênicas em regiões sem redes coletoras de esgotos. Estas privadas devem ficar longe de canais de irrigação, por exemplo, e seu conteúdo residuário não deve ser usado como adubo sem uma prévia análise da sua composição. (Figura 5).

Em regiões endêmicas, onde a água não tem tratamento prévio, antes de ser utilizada é indispensável que a mesma seja fervida, para que não haja a contaminação pela mucosa da boca, visto a quase imediata destruição dos seus ovos a temperaturas acima de 60°C.

É essencial que haja um sistema de distribuição de água potável para que a população não corra riscos, onde a doença seja endêmica. No Brasil programas de distribuição de água potável e a construção paralela de banheiros residenciais e lavanderias e chafarizes públicos têm contribuído para uma queda no número de notificações de pessoas infecionadas, em regiões de tradicionais endemicidades (Barbosa, Pinto e Souza, 1971, citados por Feachem at alli, 1983).

A literatura sobre o assunto também cita que animais domésticos, tais como cães, bovinos e búfalos, podem ser portadores do esquistossomo, bem como os ratos, o que pede um acompanhamento em regiões infestadas sobre os domésticos e a eliminação dos ratos.

Figura 5 - Algumas maneiras de prevenir a esquistossomose
(Desenho: Carlos Fernandes, 1999)


10.3. Combate ao caramujo

10.3.1. Métodos

O combate ao caramujo hospedeiro intermediário da esquistossomo, seria teoricamente a medida mais efetiva de luta contra a doença. Porém, embora de preferência aquática, este molusco é bastante versátil em suas condições de sobrevivência e de fácil reprodução. Por exemplo, na falta de água nos rios e lagos, ele é capaz de sobreviver por meses a fio escondido nas margens secas e sob a terra. Também não são afetados pela altitude, podendo ser encontrado em áreas tanto ao nível do mar como em locais acima dos dois mil metros de altura com em regiões do Egito, Etiópia, Eritréia e Iêmen. A velocidade de escoamento, a temperatura da água e a presença de vegetação adequada favorecem a imediata repovoação.

Na perseguição a esse hospedeiro têm sido usados desde moluscocidas até predadores naturais, tais como o peixes e caramujos carnívoros, estes oriundos de Porto Rico. Pesquisas realizadas no Dique do Tororó, reservatório de água poluída baiano (alguns caramujos têm preferência por águas poluídas), desde 1971, por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e da Universidade Federal da Bahia, que vêm trabalhando na elaboração de anticoncepcionais a base de cereais, especialmente a soja, específicos para afetarem os caramujos da esquistossomose, têm apresentado relativo sucesso. Também neste mesmo reservatório já foi comprovado que o peixe apaiari é um eficiente predador do caramujo (Dacach, 1979).

10.3.2. Moluscocidas

Moluscocidas têm uma longa história, inicialmente com o emprego de sulfato de cobre, porém hoje os mais empregados são a niclosamina ou Clonitralide e n-tritil-morfolina. Estes são relativamente inertes para o homem, porém devem ser manipulados e dosados com bastante critério pois são perigosos para peixes e outros vertebrados. Em vista disto são mais indicados para o emprego em canais de irrigação, obviamente porque estes canais normalmente não serem criadouros de peixes nem empregados como bebedouros de animais.

O Clonitralide conhecido comercialmente com Bayluscida ou Bayluscide, fabricado pela Bayer alemã com a fórmula química C18H8Cl2O4N2, em uma concentração de 0,3% na água provoca a morte de todos os ovos. É um produto venenoso para todos os Australorbis.

Segundo Barnish e Prentice (1981, citados por Feachem at alli, 1983) há uma tendência dos caramujos adquirirem resistência quando do uso prolongado do moluscocida, principalmente ao Bayluscida. Este fato combinado com o da longa sobrevida do esquistossomo no homem requerem que, além de uma longa e cuidadosa aplicação de moluscocidas, paralelamente sejam tomadas efetivas medidas sanitárias em relação as excretas humanas e que seja evitado o contato das pessoas infectadas, principalmente as crianças, com os corpos aquáticos (ou sadios com a água contaminada), para que o procedimento tenha sucesso.
 

10.4. Processos de Tratamento Coletivo

10.4.1. Águas de Abastecimento

Segundo vários autores, a simples cloração ou a reservação fechada por dois dias consecutivos é suficiente para a remoção das cercárias e tornar a água potável quanto a este aspecto.

Pesquisas realizadas na Venezuela demonstraram que as cercárias são capazes de atravessar o leito filtrante de filtros lentos empregados no tratamento da água. Em contraposição podem ser retidas e destruídas nos filtros de diatomita (material filtrante a base de "cascas" de diatomácias, estes são microrganismos autotróficos providos de uma rígida carapaça silicosa), quando a água é submetida a bombeamento.

Em resumo, conforme estas informações e o descrito em itens anteriores o tratamento de águas contaminadas deve levar em consideração que:

- os ovos podem esperar por vários dias para eclodirem se as condições não foram favoráveis (água limpa, luz, temperatura adequada, etc.);
- os ovos são relativamente sedimentáveis (cerca de 70% tem taxa de sedimentação de 1 metro por hora ou mais);
- filtros de areia são eficientes na remoção dos ovos, mas nem tanto dos miracídios;
- os miracídios têm vida de apenas algumas horas quando livres na água;
- os esporocistos vivem pelo menos 20 dias no caramujo;
- as cercáias têm poucas resistência na água após saírem do caramujo;
- ovos, miracídios e cercárias são facilmente eliminados com o emprego de certos tratamentos químicos e não resistem a temperaturas superiores a 60°C.
- o emprego de moluscocidas deverá ficar restrito a corpos d'água sem peixes e não utilizados por animais de maior porte.

10.4.2. Águas de Esgotamentos

Nos processos de tratamento de esgotos os procedimentos para a remoção dos ovos de esquistossomos é similar aos indicados para remoção de ovos de Ascaris. A principal diferença é a possibilidade de eclosão daqueles durante o desenvolvimento do tratamento, especialmente nos processos aeróbios. Estudos em Porto Rico mostraram que 83% dos ovos são removidos na sedimentação primária e que com filtração biológica ou lodos ativados a remoção alcança 99,5 a 100% (Rowan, 1964, citado em Feachem at alli, 1983). Estes resultados porém não garantiriam o desaparecimento total dos miracídios no caso de eclosões durante a processo.

Ovos, miracídios e cercárias poderiam ser removidos completamente com o emprego de lagoas de estabilização em série (anaeróbia, facultativa e maturação). Kawata e Krusé (1966, citados em Feachem at alli, 1983) observaram que miracídios sobrevivem por até seis horas (média de duas) em lagoas anaeróbias e por até dez horas (média de quatro) em lagoas de maturação, a 26°C. Biomphalarias sobrevivem por até 42 dias (média de 20 dias) em lagoas anaeróbias e vivem e se reproduzem normalmente em lagoas de maturação. Estas conclusões indicam que os ovos ou eclodem ou morrem em sistemas de lagoas de estabilização. Os possíveis miracídios têm de encontrar o mais rapidamente possível o caramujo hospedeiro ou serão eliminados. De um modo geral admite-se que sistemas de lagoas com períodos de detenção superiores a 15 dias, não apresentariam cercárias em seu efluente final.

Vários pesquisadores concluíram que os processos de digestão anaeróbia de lodos não são completamente eficientes, em virtude do pequeno período de detenção e que há necessidade de pelo menos três semanas de secagem do lodo ao ar livre, em climas quentes, para liquidação total dos ovos dos esquistossomos.

Segundo Feachem at alli (1983), pesquisas generalizadas desde 1947, afirmaram que o nível da cloração normal feita na desinfecção de efluentes para eliminação de vírus e bactérias seria suficiente para a neutralização da grande maioria dos ovos e a totalidade dos miracídios da esquistossomose. Pesquisas na China demonstraram que, principalmente os ovos, são bastantes suscetíveis e podem ser destruídos na presença de uréia, cianamida de cálcio e bicarbonato de amônia (Cheng, 1971, citado em Feachem at alli, 1983).

Com base nestas informações e na Figura 2, fica claro que:
- ovos da esquistossomose tornam-se mais concentrados numericamente no lodo de esgotos considerando-se sua boa taxa de sedimentação natural;
- estes ovos não são tão persistentes em fezes, lodos e outros compostos de origem fecal pouco diluídos e que processos que removem outros ovos de vermes patogênicos são, também, eficientes na sua eliminação ;
- tanques de sedimentação primários de esgotos são ótimos removedores de ovos, no entanto seu efluente não está livre da contaminação;
- unidades com lodos ativados são ótimas removedoras de ovos, porém não impedem completamente o aparecimento de miracídios no efluente;
- lagoas de estabilização, em série, são indicadas para remoção de ovos, de miracídios e de cercárias, devido ao seu longo tempo de detenção, contudo não são eficientes no combate ao caramujo;
- é prioritário que não se permita a povoação das lagoas com caramujos.
 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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