CAPÍTULO II

DOENÇAS RELACIONADAS COM A ÁGUA

2.1. Classificação das águas quanto à qualidade

Água potável - Denominada aquela que não tem micróbios patogênicos, nem substâncias químicas além dos limites de tolerância e não é desagradável pelo seu aspecto, a quaisquer dos nossos sentidos (visão, olfato, tato e paladar);

Água poluída - É aquela que contém substâncias que modificam sua caraterística e a tornam imprópria para o consumo.

Água contaminada - É a que contém micróbios patogênicos ou substâncias venenosas.

2.2. Riscos de doenças através do uso da água

A água contaminada pode de várias maneiras prejudicar a saúde das pessoas, quais sejam:

Os riscos relacionados com a água, podem ser distribuídos em duas categorias principais: 2.3. Agentes de doenças

Os principais agentes biológicos encontrados nas águas contaminadas são os parasitas, as bactérias patógenas e os vírus.

Parasitas são animais unicelulares que se alimentam do sangue de outro. Nascem e/ou crescem e/ou se reproduzem em outros corpos organizados. Em geral são protozoários, vermes ou fungos. São exemplos de doenças conhecidas em nossa região:

Bactérias são parasitas unicelulares que constitui a classe dos esquizomicetos, e cujos tipos morfológicos fundamentais são os cocos, os bacilos e os espirilos. As bactérias patógenas encontradas na água e/ou alimentos, constituem uma das principais fontes de morbidade e mortalidade em nosso meio. São os responsáveis pelos numerosos casos de enterites, diarréias infantis e doenças epidêmicas com resultados freqüentemente letais. Exemplos de doenças bastante conhecidas em nosso meio também provocadas por bactérias são: leptospirose, tifo, febre tifóide, brucelose, lepra, cólera, difteria, tétano, meningite, coqueluche e várias doenças venéreas, doenças nos olhos e na boca.


morbidade: capacidade de produzir doença numa pessoa ou num grupo delas.

Vírus são diminutos agentes infecciosos, invisíveis, com algumas exceções, pela microscopia óptica, e que se caracterizam por não terem metabolismo independente e terem capacidade de reprodução apenas no interior de células hospedeiras vivas. São típicas doenças viróticas e comuns em nossa região, as gripes e resfriados, catapora (varicela), rubéola, sarampo, caxumba, febre amarela, raiva e hepatite e poliomielite viróticas e alguns tipos de doenças venéreas. Os vírus mais comumente encontrados nas águas contaminadas por dejetos humanos são os da hepatite infecciosa e da poliomielite.

2.4. Principais doenças relacionadas com a água e seus agentes

Dos parasitas que podem ser ingeridos através da água, destaca-se a Entamoeba histolítica, causadora da amebíase e suas complicações. A Entamoeba histolítica é encontrada sobretudo em países quentes e em locais onde existem más condições sanitárias.


Amebíase
A amebíase é uma doença originada por ameba que é um animal protozoário, rizópode, da ordem dos amebinos, gêneros Amoeba Ehremb., Endamoeba Leidy e outros. Locomove-se e alimenta-se por meio de pseudópodes. As amebas são de vida livre, comensais ou parasitas. A espécie Endamoeba histolytica Schaudimm é a causadora da disenteria amebiana. Também se diz amiba. Esta parasitose é de ocorrência em qualquer região do mundo sendo mais comum em climas quentes e úmidos. É encontrada na África, América, Ásia e Oceania. Na América Latina é considerada endêmica. No Brasil esta parasitose é encontrada praticamente em todos os estados. Além de disenteria amebiana, a colite amebiana pode provocar dores abdominais, astenia, lassidão e emagrecimento. Na maioria dos casos não é uma doença grave, porém nas infecções muitos intensas pode levar a morte. É uma doença curável na maior parte dos casos, porém o tratamento tem de ser intensivo e supervisionado por especialista. Medidas sanitárias e cuidado com os alimentos, principalmente os ingeridos crus, como as verduras.

Dentre as doenças transmissíveis que se propagam pela penetração de parasitas na pele e mucosas, salienta-se a Esquistossomose Mansonica, doença esta adquirida através de banhos de rios, lagos e águas contaminadas pelo Shistosoma Mansoni (tem um tipo de caramujo como hospedeiro). Trata-se de uma doença "traiçoeira" que leva a graves lesões do organismo, diminui a resistência do indivíduo e reduz a sua capacidade de trabalho, provocando inchação fígado, diarréias, complicações pulmonares e cardíacas, micção dolorosa e com sangue. É mais fatal em jovens. Também pode ser adquirida nas plantações dentro d'água, como as de capim e as de arroz.


Esquistossomose Mansoni
A esquistossomose é uma infecção produzida por cada uma das três espécies de esquistossomo (Schistosoma haemotobium, Schistosoma japonicum e Schistosoma mansoni), e que tem, conforme o esquistossomo causador, características próprias e dependentes da localização deste. É também conhecida como esquistossomíase ou bilharziose e, popularmente, barriga díágua. O agente etiológico da esquistossomose mansoni é o esquistossomo (Schistosoma mansoni), um verme platelminto, da classe dos trematódeos, família dos esquistossomídeos, digenético (com duas ventosas, parasita do homem e de alguns mamíferos masurpiais, em cujas veias do sistema portal localizam-se os vermes adultos. A esquistossomose é uma doença originária da África, possivelmente do Egito. A esquistossomose hematóbica é mais comum na África e Oriente Médio, enquanto que o Schistosoma japonicum é encontrado no Oriente. A esquistossomose mansônica é característica das Américas. No Brasil encontra-se um dos maiores focos do mundo, distribuindo-se praticamente por quase todos os estados, principalmente com infestação endêmica nas áreas litorâneas, na Região Nordeste, Leste e Centro-Oeste. A doença pode ser curável, porém as lesões já causadas não são recuperáveis. Evitar contato com águas habitadas por caramujos que podem ser portadores das larvas do esquistossoma. Eficiência no saneamento público e combate ao caramujo. Tratamento efetivo dos portadores.

Das doenças causadas por vetores cujo ciclo biológico processa-se na água, a mais importante é a Malária, por sua endemicidade. É transmitida por mosquito infectado pelos diversos tipos de protozoários do gênero Plasmodium.


Malária
A malária é uma infecção causada por protozoários do gênero Plasmodium, do qual há cerca de 50 espécies, que é transmitida ao homem e a outros mamíferos, assim como para aves e anfíbios, através do mosquito transmissor contaminado, do gênero Anopheles, ou através de transfusões com sangue contaminado. Existem pelo menos três tipos de malária causadas pelos diferentes tipos de plasmódios: a febre terçã (do Plasmodium vivax), a febre quartã (do Plasmódium malariae) e a febre terçã malígna (do Plasmodium falciparum). Popularmente também é conhecida como febre intermitente, febre palustre, maleita, paludismo ou impaludismo, perniciosa, sezão, sezonismo, acréscimo, batedeira, tremedeira e carneirada. A transmissão intra-uterina também pode ocorrer visto que a eficácia da placenta como barreira para o parasita parece depender do grau de tolerância da mãe. É uma moléstia depauperante que leva a grande debilitação orgânica, mas raramente fatal, exceto no caso da terçã malígna causada pelo Plasmodium falciparum, cujo tratamento, inclusive, é bastante problemático. A moléstia pode ser considerada universal, sendo propagação diretamente relacionada com a presença do mosquito. Devido aos incansáveis esforços das campanhas de controle e erradicação da malária, as áreas de a incidência da doença têm sido reduzidas em todos os continentes, porém ainda é uma das moléstias de maior incidência no mundo, principalmente nas regiões subdesenvolvidas. No Brasil a distribuição da malária é muito extensa, pois as condições climáticas são favoráveis. Os sintomas da malária começam aparecer após um período de incubação no inoculado que irá depender da resistência individual, da época do ano e do número de esporozoítas inoculados. Esses sintoma iniciam-se com febre. A seguir o doente passa a sofrer dos chamados acessos maláricos que se compõem, de calafrios, tremor, calor e suor. Além da febre elevada, esta ainda pode ser acompanhada de cefaléia, náuseas e vômitos e ser de diferentes tipos: intermitente, renitente e contínua.Quem teve malária não pode doar sangue, pois pode ser um portador permanente dos parasitas da doença. Também não existem vacinas para imunização contra a doença. O mais eficiente meio de prevenção contra a doença é a eliminação de focos de mosquitos contaminados e evitar transfusões com sangue contaminado.

Outras doenças relacionadas com a água e que necessitam de inseto como transmissor são a dengue, a febre amarela, a oncocercose (comum na América Central) e a filariose.


Filariose
Parasitose grave, ainda encontrada principalmente em regiões equatoriais e tropicais. No Brasil principalmente nas Regiões Norte e Nordeste. Os vermes vivem nos vasos linfáticos do homem chegando a bloqueá-los, disso resultando grande inchaço (elefantíase) das regiões comprometidas, principalmente dos membros. A doença é contraída através da picada do mosquito (o pernilongo comum: Culex fatigans) infectado com larvas de filárias, adquiridas ao chupar o sangue de um indivíduo doente. A doença é curável antes que o paciente apresente lesões características de elefantíase. Caso contrário a eliminação pode tornar-se impossível mesmo com recurso de cirurgias. Coletivamente com medidas básicas de saneamento e tratamento isolado dos doentes. Individualmente com colocação de telas nas janelas das casas ou uso de mosquiteiros.

Dengue
Doença infecciosa produzida por vírus, transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, e caracterizada por cefaléia, mialgias, artralgias, comprometimento de vias aéreas superiores, febre, exantema, linfadenopatia. Incide, em caráter epidêmico ou de modo esporádico, na Índia, Japão, Sul do Pacífico, Caribe e América do Sul, principalmente ao norte. O dengue hemorrágico é acompanhado de fenômenos hemorrágicos e incide mais freqüentemente em crianças.

Febre amarela
Doença produzida por vírus, que ocorre em regiões tropicais e subtropicais da África e América, tendo outrora apresentado incidência significativa em áreas temperadas, sob a forma de epidemias, no verão. Há uma forma urbana (transmissão de homem a homem, através de mosquito), e uma silvestre (transmissão de mosquito a homem); vômito-negro, tifo icteróide.

Febre tifóide
Doença infecciosa causada pela Salmonella Typhi, e que se prolonga por várias semanas e inclui em seu quadro clínico cefaléia, febre contínua, apatia, esplenomegalia, erupção cutânea maculopapular, podendo, eventualmente, ocorrer perfuração intestinal.

Oncocercose
Doença causada por verme filarióide e caracterizada por grandes tumores subcutâneos. Tem como insetos vectores os mosquitos simulídeos, e ocorre na África e na América Central.


A ancilostomíase e a estrongiloidíase são doenças comumente adquiridas por penetração cutânea de vermes encontrados no solo (ancylostoma e necator - vermes que alimentam-se do sangue da mucosa intestinal) ou por auto infecção (strongyloides).



Ancilostomíase
A ancilostomíase é uma verminose produzida pelo Ancylostoma duodenale ou pelo Necator americanus, nematódeos muito parecidos entre si e pertencentes a família Ancylostomidae. Também conhecida como ancilostomose, necatoríase, uncinariose e popularmente no Brasil por opilação, amarelão, canguari, mal-da-terra, mofina. Esta parasitose é encontrada praticamente presente em todas as partes da Terra, sendo mais comum na África, Ásia, Europa e Oceania. No continente americano predomina no Chile e Peru. No Brasil é mais comum a presença do Necator americanus. Com medidas sanitárias visando evitar a deposição de fezes no solo e saneamento dos esgotos. Em áreas contaminadas, o uso de calçado protege contra a aquisição da moléstia.

Estrongiloidíase
É uma doença parasitária produzida pelo agente etiológico Strongyloides stercoralis que provoca lesões cutâneas, pulmonares e intestinais. Esta parasitose é encontrada praticamente presente em todas as partes da Terra, sendo mais comum na África, Ásia, Europa, Oceania e na maioria dos países americanos. No Brasil é mais comum nos estados do sul do país. É uma parasitose curável, porém de grande padecimento. Sua contaminação pode ser evitada com medidas sanitárias adequadas e com uso obrigatório de calçados em áreas contaminadas, como no caso do amarelão.


Algumas helmintíases podem também ser adquiridas pela água (ascaridíase e tricocefalíase), embora a maneira habitual seja através do contato com a terra contaminada. Os helmintos são vermes intestinais e os tricocéfalos, ou tricuros, são parasitas do aparelho digestivo.


Ascaridíase
A ascaridíase é uma verminose causada por ascáridas (ou ascarídeos) que são animais da família dos nematódeos, fasmídeos, da ordem Rhabditida, subordem Ascaridina, de grande porte, boca trilabiada, esôfago claviforme, macho com dois espículos, ovos elipsóides de casca espessa. Não têm ventrículo no esôfago, nem divertículo intestinal. São as populares lombrigas (Ascaris lumbricóides). Esta parasitose é encontrada em praticamente todas as partes da Terra, sendo mais comum em regiões tropicais e sub-tropicais. Não é uma doença muito grave e em geral o tratamento leva à cura. Evita-se a contaminação com esta parasitose evitando-se a ingestão dos ovos contendo o segundo estágio larvário, através de medidas sanitárias adequadas e com os procedimentos higiênicos rotineiros.

Tricocefalíase
É uma verminose provocada por um parasita do aparelho digestivo do homem, a espécie Trichocephalus trichiurus, também conhecido como tricuro ou tricocéfalo, animal asquelminto, nematódeo, tricuróideo, da família dos tricurídeos, gênero Trichuris Roederer, de corpo mais afilado na porção anterior que na posterior. A contaminação direta ocorre por ingestão de ovos embrionados. É uma parasitose de ocorrência mundial com predominância nas regiões tropicais. Não é uma infestação grave e sua prevenção é feita com instalações adequadas de água e esgotos. Eventualmente pode causar apendicite.