Orlando Villas Bôas
(1914 - 2002)
Sertanista e indigenista brasileiro
nascido em Santa Cruz do Rio Pardo, interior de São Paulo, responsável
pelo primeiro contato com os caiapós, em meados dos anos
50 e integrante do grupo mais famoso de irmãos indigenistas da história
silvícola do país. Jovens escriturários, ele e os irmãos Claudio
(morto em 1998) e Leonardo (morto em 1961) decidiram inscrever-se
(1943) como serventes para integrar a expedição Roncador-Xingu,
criada pelo governo federal (1943), com o objetivo principal de desbravar
áreas até então desconhecidas do Centro-Oeste e da
Amazônia. Não demorou muito tempo para que o encarregado da
expedição percebesse que os irmãos Villas Bôas
eram alfabetizados e educados e Cláudio fosse nomeado chefe do pessoal,
Leonardo chefe do almoxarifado e ele secretário da base.
Admirador dos ideais do marechal Cândido Rondon (1865-1958),
que instituiu no país uma política de proteção
ao índio e respeito às suas terras, tendo como lema "morrer
se preciso for, matar, nunca", participou do primeiro contato com várias
tribos. Durante a expedição foram contatados xavantes
(1948), jurunas (1949), kayabis (1951), txucarramães
(1953) e suyas (1959).A expedição Roncador-Xingu
(1943-1960) foi o marco de transformação da vida do sertanista
e de seus irmãos Claudio e Leonardo. Depois de 24 anos, a expedição
tinha aberto mais de 1.500 km de picadas, explorou mais de 1.000 km de
rios, localizou 6 rios desconhecidos, estabeleceu 6 marcos de coordenadas
e assistiu 18 aldeias indígenas. Também criou 35 cidades
novas e 19 campos de pouso, dos quais quatro se tornaram bases militares.
Sua experiência com os índios levou-o a propor a criação
de um parque indígena, onde pudessem conviver várias tribos
cuja sobrevivência estava ameaçada pela expulsão de
suas terras. No mesmo ano (1961) da morte de Leonardo, foi criado, pelo
presidente Jânio Quadros (1917-1992), com a participação
do antropólogo Darci Ribeiro (1922-1997), o Parque Nacional
do Xingu (MT), com 26 mil km2,
do qual o sertanista foi seu primeiro presidente (1961-1967), e o Parque
Nacional do Xingu. Sua ação junto aos índios continuou
mesmo depois de estabelecido o parque e (1964), participou da expedição
que primeiro contatou os índios txikãos e os kranakaores
(1973). Casou-se (1969) com Marina, enfermeira do Parque Nacional
do Xingu, com quem teve dois filhos: Orlando Villas-Boas Filho,
o Vilinha, e Noel. Aposentou-se (1978) pela Fundação
Nacional do Índio, a FUNAI, mas continuou a defender
a causa indígena prestando assessoria à entidade. Alegando
corte de gastos, a Funai o demitiu via fax (2000) das funções
de consultor, tendo depois voltado atrás, após a repercussão
negativa da forma como se realizara a demissão. Ele, entretanto,
não retornou a Funai e aceitou um convite da Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo, a USP, para prestar consultoria.
Os mais de 40 anos passados nas selvas lhe valeram mais de duas centenas
de malárias contraídas. Ele e Cláudio foram indicados
duas vezes (1971/1975) para o Prêmio Nobel da Paz. Em fevereiro (2001)
acompanhou o desfile da escola de samba Camisa Verde e Branco, em
São Paulo, feito em sua homenagem, com o título do samba-enredo
Sertanista e Indigenista Sim. Mas Por Que Não? Orlando Villas
Bôas. Também neste ano (2001) entrou na disputa pela cadeira
número 21 da Academia Brasileira de Letras com o escritor Paulo
Coelho e o sociólogo Hélio Jaguaribe, perdendo
a indicação para o primeiro.O sertanista morreu aos 88 anos,
no Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, em decorrência
de falência de múltiplos órgãos, desencadeada
por um processo agudo de infecção intestinal. Escreveu vários
livros, entre eles Xingu, Território Tribal (1979), com fotos
de Maurren Bisilliat, Marcha para o Oeste (1995), que ganhou
o prêmio Jabuti de melhor livro-reportagem, Almanaque do
Sertão (1997), no qual conta seus 45 anos de trabalho como sertanista,
todos em parceria com Cláudio, e A Arte dos Pajés - Impressões
sobre o Universo Espiritual do Índio Xinguano (2000) sobre várias
experiências sobrenaturais que presenciou entre os indígenas.
Entre os vários prêmios que recebeu ao longo da vida, destacaram-se
a medalha da Real Sociedade de Geografia, da Inglaterra (1967) e, ao lado
de Cláudio, o prêmio Geo (1984), concedido pela revista
alemã de mesmo nome, das mãos do ex-chanceler e prêmio
Nobel da Paz, Willy Brandt. Ambos também receberam a primeira
edição do prêmio Estado de S. Paulo (1990),
com uma dotação de equivalente a US$ 100 mil. O jornal inglês
The Sunday Times incluiu (1991) os irmãos Villas Bôas
entre as mil pessoas que fizeram o século 20, por seus esforços
pela sobrevivência dos índios, e por suas atividades como
exploradores, cientistas, pensadores e políticos.